quinta-feira, fevereiro 22, 2018

Depois da Partida

A cada dia que passa se torna mais aceitável lidar com a partida e a saudade da minha mãe mas às vezes ainda parece surreal que ela não está mais aqui. Vou sentir muita falta das nossas conversas. Ela sempre me tratou de igual pra igual e por isso a gente podia conversar sobre qualquer coisa. Esse era um aspecto muito legal dela.
Desde 1994 minha mãe sofreu muito com doenças físicas e mentais. Eu tentei tantas vezes fazer com ela sentisse amor pela vida novamente mas não consegui e esta era uma grande dor. Ver uma mulher independente, que curtia a vida de repente com um olhar de angústia, desespero... é triste.
Enfim...espero que ela encontre em outro plano a paz e o amor que não encontrou aqui.

E eu sempre assim. Quando estou lá, não sinto falta daqui e vice-versa. Quero ver a Nina mas também gostaria de passar um tempo aqui e lidar calmamente com tudo que é necessário pois no momento não estou nem um pouco a fim.

O que estou curtindo no momento:
- a padaria embaixo do apê (saudade que estava de padarias)
- apoio emocional dos amigos que nisso os brasileiros são melhores
- dentista que dê pra pagar
- ser convidada para ver os amigos e que não envolva gastar dinheiro. Estou cansada de tudo envolver um evento que custe grana por lá ou ter que levar mil coisas o tempo todo.

Eu e o namorado falamos da possibilidade de no futuro passar 6 meses aqui e 6 meses lá. Agora isso parece ideal. Parece perfeito!

sábado, fevereiro 17, 2018

Partida

Ter que preparar a partida de minha mãe...
Às vezes não quero ter velório. Quem queria se despedir da minha mãe, já se despediu no hospital. A ideia de vir um monte de gente do nada se despedir da minha mãe depois da partida dela não faz sentido pra mim. Ter que receber pêsames de um monte de gente me dá aflição.
Lá nos EUA muitas vezes fazemos uma celebração à vida uma ou duas semanas depois com fotos, recordações, relembrar as memórias e histórias dela. Parece muito melhor.

3ª Semana

Uma coisa que eu aprendi nessa vida é que ninguém sobrevive só de boas intenções, discursos, pensamentos e orações. Na hora do sufoco o que conta mesmo são as ações e atitudes de chegar e fazer. Será a “empatia prática”? E contar com gente assim é impagável. Nesse momento difícil algumas pessoas queridas tomaram as rédeas e não sei o que seria sem elas, tanto amigas da minha mãe quanto amigas minhas. Isso sempre toca meu coração. Como é bom poder contar com apoio, amor, compaixão e atitude. Aquela doação sem esperar nada em troca e puro amor ao próximo. Sou grata pelo resto da minha vida.
Demonstrações de amor contam muito mais que orações a divindades religiosas.

Os resultados de um mundo melhor com mais amor vem das nossas ações, não das nossas intenções. Eu vejo muita gente que prega muita coisa mas na hora do "vamos ver" não age de acordo. Acho que isso serve para a maioria de nós. Apareceram amigos que não vejo há 10 anos oferecendo ajuda todos os dias seja com uma palavra de conforto, uma refeição, qualquer coisa. Obrigada por haver pessoas assim pois não contar com ninguém nessas horas seria muito mais difícil do que já é. As intenções e orações não ajudam a me dar um descanso pra ficar mais forte no processo de estar ao lado da minha mãe. 

Descobri que a lei do direito de morte (eutanásia) foi aprovada no ano passado na Califórnia. Ainda bem. Nunca mais quero ver um ser humano sofrendo desse jeito. Os gritos de dor que escutei no corredor do hospital são aterrorizantes.

Já não estou sentindo tanta falta de casa porque meu pensamento está concentrado na minha mãe. Comentei com os amigos de lá sobre a ideia de ficar aqui um tempo e eles: "não! queremos você aqui onde você pertence". Que bonitinho! O que seria dessa vida sem amigos?

quarta-feira, fevereiro 07, 2018

Should I stay or should I go?

Toda vez que eu venho pro Brasil fico questionando a possibilidade de vir pra cá, principalmente agora que estou trabalhando online.
Durante a depressão foi difícil ficar lá mas desta vez todo dia um amigo de lá me escreve pra ver como eu estou e se preciso de alguma coisa. Tem uma solidariedade coletiva que é muito admirável. Estou sentindo falta de um apoio emocional no meio de todo esse stress.
Quando mencionei o lance do apartamento, já se ofereceram pra empacotar tudo pra colocar num depósito. É muito bom poder contar com as pessoas em momentos difíceis.
Uma coisa que sempre reclamei foi da questão saúde lá. O hospital que a mãe está aqui é mais humanizado e a comida infinitamente melhor mas hoje ligaram pra adiar por 2 semanas uma consulta da mãe no estado em que ela está. Então depender de saúde pública no Brasil também é bem arriscado.
Daí penso que aqui seria mais fácil conseguir um bom lugar pra morar mas o tamanho gigantesco da barata que encontrei ontem deu vontade de pegar o primeiro avião pra casa.
Preciso estar aqui mas já estou com saudade do meu cantinho, da minha cama, das minhas coisas e lógico principalmente da Nina. Eu passo tanto tempo dentro de casa que é onde me sinto à vontade.
Estou cansada de Los Angeles. Quero um lugar com mais árvores. Mas será que consigo me readaptar ao Brasil?

terça-feira, fevereiro 06, 2018

Choque Cultural?

Será que virei muito americanizada?
Eu fico meio chocada com tamanha religiosidade e sexualidade em conversas e mídia. Nas conversas o assunto tem sempre Deus e oração no meio (com exceção dos amigos jornalistas). E as músicas que fazem sucesso é sobre sexo e bunda. Eu não me importo que quem faz sucesso seja homem, mulher, drag, o que for mas a objetificação do corpo me incomoda.
Daí o menino na loja me pergunta sobre os EUA, diz que o sonho dele é ir pra lá porque celular e carro são mais baratos lá. Fala sério! O que eu gosto nos EUA não é o preço das coisas. É a segurança, a honestidade, a agilidade e mais chance de trabalhar em coisas que você gosta. É um sistema menos burocrático, uma cultura menos machista, amigos menos possessivos e neuróticos.
Mas como eu disse, coisas boas têm lá e aqui.

Agora depois de 10 dias, estou com um ótima impressão do hospital oncológico em que minha mãe está. Tratamento mais humanizado e comida mais natural.

Ah, e vocês sabiam que Floripa tem bem menos moradores de rua do que Los Angeles?